POR QUE ESCREVER?

 Nem só de receitas vive um livro. Se fosse só pelas receitas, eu as deixava todas no blog, certamente. E, com relação a este assunto, eu ouso apenas falar por mim. Livro é um pedaço da minha alma que quer escapar por algum lugar, mas não sabe para onde ir. É querer dizer alguma coisa, contar uma história, fantasiar a realidade, fugir deste mundo de alguma forma... Não importa se é comida que eu coloco ali naquela página ou se é o silêncio que explica o que sinto. A única coisa que importa é tirar aquela angústia de dentro de mim, que acaba se transformando em amor, inconformidade, comida, receita. Infelizmente este alívio é temporário, parece que quanto mais eu tento falar, menos eu consigo me explicar. Este ano editei e lancei dois livros em menos de dois meses: o "Feijão com arroz" e o "Quarenta". O Feijão é um baita desabafo sobre a pandemia, a fome e a valorização do que é nosso. É sobre simplicidade e consciência, sobre como olhamos e respeitamos o outro neste momento trágico. Mas, Claudia, só tem receita! Será? Para mim tem muito mais que receita... tem um pedaço da minha loucura ali, da vontade de viver em um mundo melhor. O Quarenta é fruto da minha crise dos 40 anos, que completei no último dia 8 de abril. Pesquei alguns textos que escrevi desde a adolescência e resolvi deixar o universo tomar conta. Estou com tanto medo de morrer de COVID que nem fiquei com medo que lessem as besteiras que escrevi. E daí? O que são algumas linhas desabafadas diante da morte? Não é por status, fama ou dinheiro. Ninguém faz livro para ganhar dinheiro, eu acho. Existem coisas mais lucrativas que isto. Livro é um pedaço de mim, da minha falta de lucidez e do amor que tento semear, com muita dor. Dia 15 de março, por incentivo de vocês, por medo de morrer e porque eu já tinha este projeto na gaveta desde 2017, resolvi produzir e editar o livro do Líbano, com memórias reais e inventadas da terra da habib, minha vó Adelia. Tem receitas de família, mas a maioria é fruto de pesquisa e curiosidade, de saudade de coisas que nunca vivi. O Feijão estava saindo do forno e eu já havia começado este outro. Um mês depois e eu praticamente o terminei, o que posso fazer? Esperar? Não quero não... Não sei se a COVID vai deixar, então quero este pedaço de mim voando no universo também, compartilhando coisas boas e comidinhas que podem aquecer algum coração angustiado como o meu. São só receitas, não é mesmo? Mas o que é a cozinha e a comida se não um pedaço da nossa alma, das nossas memórias e da nossa história?